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Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Hospitais portugueses: será o precipício o caminho? Relato na primeira pessoa

Se há coisa que serve de arma de arremesso neste país entre poder político e oposição é o Sistema Nacional de Saúde. De facto, são quase 40 anos deste "projeto" que é considerado por muitos o grande feito da democracia. Por mais que as falhas existam, que o dinheiro seja escasso, que os profissionais estejam descontentes, que as horas de espera sejam intermináveis, temos um Serviço Nacional de Saúde de fazer inveja a outros países. É esta a minha opinião. Quando ouço relatos vindos do Brasil, ou até mesmo da Venezuela, é que fico ainda mais certo disto mesmo. Se partimos um pé, uma hora depois de termos entrado no serviço de urgência já temos um pé engessado. Se desmaiarmos no meio de um espaço público, meia hora depois já estamos num hospital e em fase de diagnóstico. Critiquem o que quiserem, mas o que é facto é que em muitos países isto não acontece. Portanto, temos de agradecer a todos os profissionais que trabalham horas e horas sem fim.

 

Atenção. Não serve este post para dizer que temos um SNS perfeito. Até porque está longe de o ser. Aquilo que quero vincar é que temos de ser mais cautelosos quando fazemos críticas desmesuradas. Ainda assim, não posso deixar de relatar um episódio recente que me marcou profundamente, pela negativa. Sabem, um daqueles murros no estômago? Não é novidade para ninguém que os hospitais estão mais do que lotados, que as camas livres são poucas, e que o abandono dos mais velhos nas instalações dos hospitais é uma realidade mais do que presente. Há pouco tempo estive num hospital da Área Metropolitana de Lisboa, por motivos familiares, e é impressionante como os hospitais não param. Sabemos que as doenças e os imprevistos não têm dia nem hora marcada, mas não deixa de ser impressionante a quantidade de pessoas que diariamente marca presença nos hospitais espalhados pelo país. 

 

Estava sozinho numa das muitas salas de espera do hospital. Por motivos de rentabilização do tempo ( estive 8 horas dentro do hospital), aproveitei para ir escrevendo umas coisas e, como tal, desloquei-me para uma área mais recatada. Macas a passarem com pessoas idosas é o "prato do dia". Até que passa uma enferemeira com um maca que tinha um senhor já de idade numa situação, pareceu-me, de alguma confusão. Um senhor confuso, que nada falava, que pouco se mexia. Mas é para pessoas como essas que os hospitais servem. Para tentar trazê-las de novo à vida. A tal enfermeira passou, deixou a maca a um canto e foi para uma sala onde estavam outros enfermeiros. Sim, e o senhor por lá ficou sozinho, completamente "abananado". Só o facto de se deixar um senhor daquela idade ( com os seus 80 ou mais anos) sozinho, no canto de um corredor, à mercê da própria sorte já é de lamentar. Mas o pior veio a seguir. Aquele senhor estava completamente sozinho num canto de um hospital, enquanto os enfermeiros estavam numa das salas a ouvirem e cantarem uma das músicas funk do momento, " Mafiosa". 

 

"Este rapaz só pode estar a gozar", deve estar a pensar. " Cena de filme ou novela", poderia ser sim. Mas não caro leitor. É um relato bem real, na primeira pessoa, e que me deixou chocado. Atenção, não serve tudo isto para meter todos os profissionais de saúde deste país no mesmo saco. Mas há algo que me deixa ainda mais perplexo: os médicos e enfermeiros deste país antes de serem profissionais de saúde que zelam pelo bem-estar de todos nós, são humanos. Pessoas que são filhos, pais, sobrinhos, netos. Acho que o grande truque deve ser: "Não vou fazer aos doentes aquilo que não gostaria que fizessem aos meus pais, aos meus filhos, aos meus avós".

 

Quando assim for, acho que o caminho vai ser muito mais promissor. Por favor, todos antes de sermos estudantes, advogados, médicos, engenheiros... somos humanos. O bom senso deve imperar. Só quando isso acontecer é que episódios como aquele que eu vivenciei não vão acontecer. 

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