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Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Eu, jovem, me confesso: o futuro não se faz apenas com um canudo. E os professores são peça chave…

Parecendo que não, perto de 12 anos da nossa vida são passados numa cadeira de uma sala de aula. É tempo mais do que suficiente para fazer umas quantas amizades, outros tantos ódios passageiros. Coisa mais normal do que esta não há. E há também algo que nos é desde sempre instituído: a faculdade deve ser o objetivo final desta longa etapa.

 

Para mim faz todo o sentido que assim seja. Atenção, falo apenas por mim. Já tenho há muitos anos um objetivo muito bem definido. E é para isso mesmo que tenho andado a trabalhar. Mas nem todos temos de ter este rumo. O que é verdadeiramente importante é que todos os outros que não vão ter o “conforto” de um curso superior (que hoje em dia, diga-se, também já não é sinónimo de segurança nenhuma) tenham também eles objetivos definidos, e que trabalhem tanto ou mais que eu para conseguirem ser bem sucedidos. Mas para que tal aconteça é necessário que todo o caminho lá para trás tenha substância, experiências suficientemente marcantes que nos venham a ser úteis no futuro.

 

Os professores devem ser encarados como companheiros nesta longa jornada, até porque são peça fundamental desta grande encruzilhada. Todos os meus colegas que chegam a uma sala de aula já com a ideia de que os professores são “um alvo a abater” e que pouco ou nada fazem raramente têm uma grande abertura a querer concretizar uma meta pré-definida. Porque é que tem de ser assim? É tão bom poder manter o contacto com a minha professora primária,  a professora Lurdes, e saber que quase 12 anos depois ela ainda sem lembra de mim e dos meus colegas como se tivéssemos saído ontem da escola primária. É tão bom poder passar na rua, encontrar a minha professora de Matemática do 3ºciclo, a professora Carla, ficar meia hora a falar com ela como se não nos vissemos há uma década, e recordar todos os momentos hilariantes que vivemos. Ou dar aquele abraço à minha professora de Francês, a professora Ana, partilhar os sonhos, recordar o passado, relatar o presente, e receber o apoio em tudo aquilo que faço. Receber links de notícias e de ideias inovadoras por parte da minha professora de Geografia, a professora Angelina, que sempre nos mostrou mais do que simples páginas de um livro. Ou ainda as ideias e os projetos frenéticos da professora Cláudia no último ano do 3º ciclo. É assim que deve e tem de ser e é tão bom que assim seja.

 

Com todas vivi mais do que 90 minutos dentro de uma sala de aula. Partilhámos ideias fora da caixa, idealizámos projetos, debatemos o futuro, organizámos eventos. Tudo e mais alguma coisa. Apresentei galas, fiz cartazes, vendi rifas, andei numa cozinha a empratar caldos verdes, andei a servir sandes de porco no espeto. Toquei guitarra em muitos palcos, cantei no CCB, tive dezenas de concertos. Já no secundário, participo em tudo o que há e mais alguma coisa. Viajei um pouco por todo o país, estive semanas longe de casa com pessoas que não conhecia de lado nenhum, partilhei momentos com pessoas incríveis, pessoas de outras nacionalidades, passei horas e horas a conhecer outras realidades que ninguém sabe que existem, a delinear ideias para projetos sociais, fiz 1001 artigos, tive conversas que jamais pensei ter, entrevistei pessoas que jamais pensei entrevistar, reinventei-me como jamais pensei reinventar-me. São estes projetos que acrescentam aquilo que falta à nossa vida. Ter uma boa média é importantíssimo, mas para mim são estas ideias e projetos que de facto valem a pena, por mais tempo extra e trabalho que exigam.

 

Hoje, 12 anos depois, e prestes a começar o 12º ano, o derradeiro, o tudo ou nada, digo com toda a certeza que sou uma pessoa mais aberta a novas pessoas e ideias, uma pessoa mais realizada, com objetivos mais do que definidos, e que agora sim tem a certeza que, contrariamente ao que muitos dizem, esta geração não está perdida. Que há jovens como eu que não têm medo do desafio de partir à descoberta e que lutam todos os dias para conseguirem mais e melhor. Não só dentro das quatro paredes de uma sala de aula, mas fora delas também. E sempre com o apoio fundamental dos professores, que apesar de terem 200 testes para corrigir, 20 relatórios para fazer e outras tantas aulas para preparar não se inibem de nos ajudar.

 

Se uma licenciatura é mais do que importante? Claramente. Mas se todos estes projetos e iniciativas que nos enriquecem de forma inexplicável são de facto o que nos prepara para um futuro onde os problemas e respostas rápidas são mais do que necessárias? Sem margem para dúvidas. E de preferência sempre com o apoio incondicional dos professores. Para mim, hoje sem dúvida grandes amigos e pessoas importantíssimas na minha vida.

Hospitais portugueses: será o precipício o caminho? Relato na primeira pessoa

Se há coisa que serve de arma de arremesso neste país entre poder político e oposição é o Sistema Nacional de Saúde. De facto, são quase 40 anos deste "projeto" que é considerado por muitos o grande feito da democracia. Por mais que as falhas existam, que o dinheiro seja escasso, que os profissionais estejam descontentes, que as horas de espera sejam intermináveis, temos um Serviço Nacional de Saúde de fazer inveja a outros países. É esta a minha opinião. Quando ouço relatos vindos do Brasil, ou até mesmo da Venezuela, é que fico ainda mais certo disto mesmo. Se partimos um pé, uma hora depois de termos entrado no serviço de urgência já temos um pé engessado. Se desmaiarmos no meio de um espaço público, meia hora depois já estamos num hospital e em fase de diagnóstico. Critiquem o que quiserem, mas o que é facto é que em muitos países isto não acontece. Portanto, temos de agradecer a todos os profissionais que trabalham horas e horas sem fim.

 

Atenção. Não serve este post para dizer que temos um SNS perfeito. Até porque está longe de o ser. Aquilo que quero vincar é que temos de ser mais cautelosos quando fazemos críticas desmesuradas. Ainda assim, não posso deixar de relatar um episódio recente que me marcou profundamente, pela negativa. Sabem, um daqueles murros no estômago? Não é novidade para ninguém que os hospitais estão mais do que lotados, que as camas livres são poucas, e que o abandono dos mais velhos nas instalações dos hospitais é uma realidade mais do que presente. Há pouco tempo estive num hospital da Área Metropolitana de Lisboa, por motivos familiares, e é impressionante como os hospitais não param. Sabemos que as doenças e os imprevistos não têm dia nem hora marcada, mas não deixa de ser impressionante a quantidade de pessoas que diariamente marca presença nos hospitais espalhados pelo país. 

 

Estava sozinho numa das muitas salas de espera do hospital. Por motivos de rentabilização do tempo ( estive 8 horas dentro do hospital), aproveitei para ir escrevendo umas coisas e, como tal, desloquei-me para uma área mais recatada. Macas a passarem com pessoas idosas é o "prato do dia". Até que passa uma enferemeira com um maca que tinha um senhor já de idade numa situação, pareceu-me, de alguma confusão. Um senhor confuso, que nada falava, que pouco se mexia. Mas é para pessoas como essas que os hospitais servem. Para tentar trazê-las de novo à vida. A tal enfermeira passou, deixou a maca a um canto e foi para uma sala onde estavam outros enfermeiros. Sim, e o senhor por lá ficou sozinho, completamente "abananado". Só o facto de se deixar um senhor daquela idade ( com os seus 80 ou mais anos) sozinho, no canto de um corredor, à mercê da própria sorte já é de lamentar. Mas o pior veio a seguir. Aquele senhor estava completamente sozinho num canto de um hospital, enquanto os enfermeiros estavam numa das salas a ouvirem e cantarem uma das músicas funk do momento, " Mafiosa". 

 

"Este rapaz só pode estar a gozar", deve estar a pensar. " Cena de filme ou novela", poderia ser sim. Mas não caro leitor. É um relato bem real, na primeira pessoa, e que me deixou chocado. Atenção, não serve tudo isto para meter todos os profissionais de saúde deste país no mesmo saco. Mas há algo que me deixa ainda mais perplexo: os médicos e enfermeiros deste país antes de serem profissionais de saúde que zelam pelo bem-estar de todos nós, são humanos. Pessoas que são filhos, pais, sobrinhos, netos. Acho que o grande truque deve ser: "Não vou fazer aos doentes aquilo que não gostaria que fizessem aos meus pais, aos meus filhos, aos meus avós".

 

Quando assim for, acho que o caminho vai ser muito mais promissor. Por favor, todos antes de sermos estudantes, advogados, médicos, engenheiros... somos humanos. O bom senso deve imperar. Só quando isso acontecer é que episódios como aquele que eu vivenciei não vão acontecer.