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Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Porque precisamos de um Governo de Cultura e não de um Governo com Cultura

Somos pioneiros em muita coisa. Fomos pioneiros na História. Fomos pioneiros nos descobrimentos, onde mostrámos todo o nosso engenho e arte. Somos pioneiros na arte de bem escrever, onde demos a conhecer a todo o mundo escritores e poetas que hoje são lidos e analisados com tanto ou mais entusiasmo daquele com que eram há séculos.  Pioneiros na arte de bem falar. Pioneiros na arte de bem cozinhar. Pioneiros na arte de bem receber. Pioneiros na arte de bem dar a conhecer. Mas também pioneiros na arte de bem desprezar o talento e o património nacionais.

 

A semana passada foi marcada pela polémica na Cultura. Governo e classe artística entraram em confronto: tudo porque o financiamento às várias companhias estava longe de ser o desejado, com Teatros como o Teatro Experimental de Cascais a ficarem de  fora do leque de financiados. A Cultura é, foi, e sempre será um dos temas mais frágeis e fraturantes em qualquer governo, seja ele de esquerda ou de direita. Mas o governo PS de António Costa colocou a fasquia muito alta: não nos esqueçamos que na campanha para as Legislativas de 2015, Costa organizou várias ações de campanha com nomes sonantes, desde Camané e Gisela João na área da música, ou ainda Diogo Infante e Paulo Pires na área da representação, e apontou a área da Cultura como uma das áreas onde seria essencial intervir. E fê-lo. Relançou-se o Ministério da Cultura, com João Soares como ministro. E também aqui, mais uma vez, o Facebook a fazer das suas: quem não se lembra do tão caricato episódio do valente par de chapadas prometido a dois colunistas do Público através de um post na rede social, e que culminou na sua demissão? Luís Castro Mendes foi o senhor que se seguiu.

 

Se Costa prometeu, Costa tem que cumprir. E era isso que todos os que estavam a seu lado esperavam. São inquestionáveis os méritos que o atual governo tem vindo a registar na área financeira, nomeadamente o de ter conseguido alcançar o mais baixo défice da democracia. No entanto, na área da cultura o cenário é bem diferente. Promessas, acredito eu que de boa fé e genuínas, mas que estão longe de estarem cumpridas. Mas Costa e o Governo não se podem queixar porque a classe artística só está a cobrar aquilo que lhes foi prometido.

 

Ninguém tem dúvidas de que a Cultura é um dos bem mais preciosos que temos, que nos acompanha dia após dia. E também ninguém tem dúvidas que se há algo em que Portugal é mestre, é na arte de não saber reconhecer o talento e, consequentemente, promover a exportação do talento nacional. Em ano de Eurovisão, pergunto eu: Como é que conseguimos explicar aos milhares de turistas que vão invadir Lisboa já no final deste mês, e que se vão deparar com o talento musical, teatral, acrobático nos quatro cantos da capital, que todos esses acrobatas, músicos, dançarinos e tudo mais, não passam de artistas de rua que fazem aquilo que mais amam para poderem sobreviver e que, 99%, nunca teve a oportunidade de pisar um grande palco e ser pago para fazer aquilo que melhor sabe fazer? Simplesmente não se explica. Apenas se deixa os turistas a pensar que um país que vai organizar um evento de milhões não tem umas centenas de euros para ajudar os seus próprios artistas. Ou um país que tem dinheiro para ter uma mão cheia de carros topo de gama para as altas patentes do Estado, não tem dinheiro para preservar o património: veja-se o caso da Escola Superior de Dança ou do Conservatório Nacional, duas instituições fundamentais na formação da classe artística do amanhã e que estão a cair aos bocados, literalmente.

 

Temos um Governo com Cultura. Sim, isso é inegável. Mas o que precisamos verdadeiramente é de um Governo DE CULTURA. Um Governo que veja a cultura como uma área tão fundamental na vida de todos como a saúde, por exemplo. Um ministro que faça jus ao cargo e que se faça ouvir de viva voz, que não se feche entre as quatro paredes do Palácio Nacional da Ajuda. Um Ministro policiamento ativo. Porque para apostar na Cultura não basta ter um Ministério da Cultura. Esse é apenas o ponto de partida.

Se o dinheiro é um ponto de partida fulcral? Claro que sim. Mas dinheiro sem meios e reconhecimento de pouco ou nada vale.

Bruno de Carvalho, o "Mister Contradições"

Se recuarmos ao início desta semana, há um evento que marca (ou deveria marcar) o mundo do futebol: teve lugar na Assembleia da República uma discussão na qual foi debatida, entre outras coisas, a violência no desporto e o papel da comunicação social e dos próprios clubes nesta área. Bruno de Carvalho, apesar de não ser um dos oradores previstos, quis fazer ouvir-se de viva voz e em pouco mais de meia-hora deixou bem clara uma ideia: os clubes estão a ser o único garante de que o futebol ainda tem adeptos.

 

Passados dois dias, na quinta feira, o Sporting tinha pela frente um jogo nada fácil, mas também em nada impossível, a partida da Liga Europa frente ao Atlético de Madrid. Volvidos 90 minutos mais uns quantos de prolongamento, o resultado não era definitivamente o desejado pelos sportinguistas: uma derrota a duas bolas. Mas o rastilho de esperança ainda permanecia no ar, até porque a segunda mão em Alvalade poderia mudar o rumo da história. Nessa mesma noite, Bruno de Carvalho publica um post no facebook, no mínimo, opinativo de mais. E é aqui que começam as contradições. O mesmo Bruno de Carvalho que no início da semana discursava numa conferência sobre a violência no desporto, decide atirar achas para a fogueira criticando o modo de jogo, opinando sobre opções táticas e técnicas, e, inclusive, nomeando alguns jogadores sem se quer poder imaginar o impacto que tudo isto teria no seio do balneário e da comunicação social? O mesmo Bruno de Carvalho que em maio deste ano disse que ia abandonar o Facebook, justificando tal decisão por esta rede social “ter um lado perverso que não pretendo ver aumentado”? Certo, conhecendo o historial de Bruno de Carvalho, nada de novo na sua presença no Facebook.

 

Horas mais tarde, num programa de análise desportiva na CMTV, o presidente do Sporting decide intervir em direto por via telefónica (só para relembrar: estou a falar do mesmo Bruno de Carvalho que no discurso final da Assembleia Geral do Sporting há pouco mais de um mês pediu aos sócios para não verem nenhum canal português a não ser a Sporting TV). Este poderia dar a sua opinião, para variar, mas tal não lhe foi suficiente. Pelo meio deixou uns insultos daqueles nada bonitos de se ouvirem aos comentadores do programa, nomeadamente a Francisco José Viegas, antigo Secretário de Estado da Cultura. Acham que já são contradições suficientes? Talvez sim, talvez não. Portanto, só para resumir tudo isto: o presidente de umas das maiores entidades desportivas nacionais, que há dias esteve num encontro que debateu a violência no futebol, supostamente aquele que deveria ser o primeiro a defender a sua equipa de tudo e todos, a contribuir para coesão no balneário, a defender a prestação do seu clube em campo (que não foi, de todo, má), é também ele o primeiro a apontar o dedo a X e Y. Como é óbvio, qualquer presidente de qualquer clube tem direito a ter a sua opinião e a fazer as suas críticas à sua equipa. Agora… tornar essas críticas públicas? Descarregar essas críticas sem dó nem piedade no Facebook, que já tem ódios e frustrações a mais? Criticar a própria equipa publicamente ao invés de ir ao balneário e guardas essas críticas para entre quatro paredes?

 

Acredito que neste momento não há ninguém neste país, sportinguistas e não sportinguistas, que não esteja lado a lado com os jogadores. O post publicado no Instagram por Rui Patrício e William Carvalho é de uma sinceridade e genialidade simultaneamente inacreditáveis. Quem leu o post rapidamente chega a uma conclusão: os jogadores apenas se defendem das críticas do presidente, jogadores que se entregam de corpo e alma ao clube, aos jogos, aos adeptos. Jogadores que nunca publicamente perderam as estribeiras, mesmo quando se calhar tinham razões para tal. O conteúdo do post em nada é ofensivo para com o Presidente. Se os jogadores tinham toda a razão do seu lado até então, quando foi anunciada publicamente a decisão do presidente de os suspender ainda mais razão ganharam. Apesar de nem todos os jogadores terem subscrito o comunicado, não tenho a mínima dúvida de que o balneário está unido nesta luta. Mais uma vez, Bruno de Carvalho volta ao facebook e parte para as críticas aos jogadores:  “Já estou farto de atitudes de miúdos mimados que não respeitam nada nem ninguém.” E pergunto eu: Quem é que não respeita nada nem ninguém? Bruno de Carvalho ou os jogadores?

 

Certo, podem alegar que Bruno de Carvalho como presidente do clube, aquele que paga os ordenados aos jogadores, tem legitimidade para criticar os mesmos. Ou então não. São os jogadores que pagam o ordenado, a honra, parte da felicidade e do sucesso profissional de Bruno de Carvalho. Os jogadores são os patrões de Bruno de Carvalho e não o contrário. Se não forem os jogadores a dar tudo em campo, a ganhar jogos, a valorizarem a sua imagem e o seu preço no mundo do futebol, a atraírem patrocinadores, como é que aparecem os euros nas contas do Sporting? Apesar de Jorge Jesus na conferência de imprensa que deu às 18 horas ter dito que “ Não houve notas de suspensão e serão convocados todos os disponíveis em termos físicos”, o que é certo é que as palavras de Bruno de Carvalho já foram um murro no estômago suficiente para os jogadores. Não tenho a mínima dúvida de que se antes da partida frente ao Atlético, o Sporting tinha a possibilidade de arrecadar a Taça de Portugal e, se bem que menos provável, a Liga Europa, neste momento o cenário é menos animador. Daqui em diante, qualquer falha técnica da parte dos jogadores do plantel leonino vai ser sempre sinónima de receio, ou, no mínimo, de imprevisibilidade. Nunca se sabe se Bruno de Carvalho não pode voltar a fazer das suas. Mas, sinceramente, qual é o jogador que tem a mínima vontade de permanecer num clube onde quando as coisas não correm às mil maravilhas, não é apoiado?

 

Se Bruno de Carvalho deveria demitir-se? Claramente. A vida profissional e pessoal de Bruno de Carvalho estão mais do que ligadas. Não nos esqueçamos que Bruno de Carvalho anunciou que iria ser pai novamente através de um vídeo que passou nos ecrãs do Estádio de Alvalade antes do Sporting-Marítimo em Setembro passado, a título de exemplo.

Se Bruno de Carvalho vai fazê-lo? Acho difícil. Os louros da presidência de Bruno de Carvalho são inquestionáveis, isso ninguém lhe consegue tirar. Mas este episódio foi lamentável de mais. Se se o fizesse subiria uns pontos na consideração dos adeptos? Sem dúvida. E seria uma chapada de luva branca para todos os seus críticos. Era o admitir de um episódio infeliz que não deveria ter existido. Mas para Bruno de Carvalho o Sporting está mais do que dependente de si próprio. Enquanto este não se convencer do contrário, mais bombas como esta vão continuar a invadir a discussão pública.