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Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Um adolescente coisificando coisas de adultos

Autor: Rúben de Matos

Secundária do Restelo, serás a única?

Há apenas 21 dias virámos a página a um novo ano. E como se diz na gíria, “Ano novo, vida nova”… Ou então não. Há coisas que por mais que passem anos e anos não verificam grandes melhorias.

No final desta semana dei de caras com um artigo do Observador com o seguinte título: “ Falta de condições na secundária do Restelo obriga alunos a cobrirem-se com mantas nas aulas”. Um artigo que, certamente, espantou e não espantou a maior parte dos leitores. Os alunos queixam-se do frio que se faz sentir nas salas de aula, da não existência de aquecedores, e de, por exemplo, da existência de cadeiras e mesas velhas. Críticas que se justificam e que fazem todo o sentido. Até aqui todos de acordo. Mas a grande pergunta que se impõe neste momento é: Quantas secundárias do Restelo existirão por este país fora? Quantas escolas com condições piores do que esta é que existem e que não são notícia? Quantos alunos é que sentem diariamente na pele o mau funcionamento da burocracia e das regras pré-feitas do ensino em Portugal?

Há coisas que me deixam perplexo. E esta é uma delas. Eu também sou um aluno do Ensino Secundário. Também ando numa escola que em mais de 25 anos de história nunca viu nenhuma obra de melhoria profunda. Também sofro com o frio às 8 da manhã durante as aulas de tal forma que temos que partilhar mantas e casacos. Também sofro com o sol e calor aterradores de Outubro às três da tarde numa sala onde os estores estão estragados. E na minha escola não são apenas algumas escolas que não têm aquecimento: NENHUMA TEM. Também sou confrontado com um espaço a que chamam de casa de banho que parece tudo menos uma casa de banho. Como diria um amigo meu, “ um espaço com um estilo minimalista”… Também me sento em cadeiras que são tudo menos confortáveis para estar uma hora e meia sentada, hora e meia essa em que deveria estar totalmente concentrado mas que não consigo dadas as dores de costas com que fico.Também deixo de fazer as aulas de educação física quando chove e o pavilhão fica cheio de poças. Também já fiquei com uma farpa espetada nas minhas calças. Os meus professores também já não nos apresentaram PowePoint´s e vídeos porque o projetor não funcionava. Os meus professores também já não nos apresentaram mapas para analisarmos porque simplesmente a diferenciação entre as cores não é perceptível. Também já fiquei com apresentações penduradas porque o vídeo que tanto trabalho me dera a fazer não o podia apresentar simplesmente porque o som do projetor não funcionava. Ando numa escola que convive diariamente com uma escola nova em frente, semi-acabada, que por falta de dinheiro não pode ser acabada e que por falta de segurança nunca nenhum aluno lá pode entrar. E tal como eu e os meus colegas sentimos tudo isto na pele, também existem por este país fora milhares e milhares de jovens que se vêm confrontados com cenários muito piores. Tal como eu e os meus colegas também existem milhares de jovens que não conseguem ter voz na comunicação social. Tal como eu tenho professores excelentes e que se vêm acorrentados por pequenos pormenores que fazem uma grande diferença em Lisboa, também tantos e tantos professores se encontram nesta situação no Porto, em Coimbra, um pouco por todo o país. Tal como a minha escola espera há anos por uma casa melhor, tantas outras escolas lutam pelo mesmo. Em causa não está a qualidade do pessoal técnico, dos professores, das funcionárias do bar, da portaria e das administrativas da secretaria. Esses, coitados, tentam fazer omeletes sem ovos e lá vão conseguindo…

Ao que parece não estás sozinha, Secundária do Restelo! Já viste? Assim sendo, o que é que podemos fazer? Bom, ao que parece não podemos fazer muita coisa. Apenas relativizar. Se eu ando numa escola com estas condições, há quem nem escola tenha. Só uma coisa: nem eu nem ninguém quer uma escola perfeita, apenas uma escola melhor... de todos para todos!